Uma vietnamita que viajou para Taiwan em busca do pai que ela nunca havia conhecido acabou trabalhando para ele como empregada, sem saber.Tran Thi Kham, de 40 anos, não descobriu a verdade até depois de ter deixado o emprego.A reunião só ocorreu porque ela esqueceu alguns pertences em sua casa, que ele havia dado à mãe dela há mais de 40 anos.Tsai Han-chao, de 77 anos, disse que não conseguiu evitar o choro quando descobriu que tinha uma filha da qual nada sabia."Os altos e baixos da vida são como um drama de televisão. Como eu poderia ter sonhado que ela era minha filha? Eu não consegui parar de chorar quando finalmente nos reunimos", disse ele ao canal de TV a cabo taiwanês TVBS.Tran havia viajado para Taiwan alguns anos antes a procura do pai.Suas únicas pistas eram um anel de ouro e uma fotografia dele quando jovem, que o pai havia dado para a mãe dela quando eles se apaixonaram, em Hong Kong, em 1967.A mãe de Tran voltou para o Vietnã, para cuidar da mãe doente, e o pai, mais tarde, retornou a Taiwan.A mulher deu à luz a Tran Thi Kham, mas morreu dois anos depois. A menina foi criada pela tia - que ela acreditava ser sua mãe biológica até o dia de seu casamento, aos 21 anos.Naquele dia, sua tia contou a história e deu a ela o anel e a foto.Reunião emocionante Mais tarde, depois de criar os próprios filhos, Tran decidiu procurar o pai dela em Taiwan.Ela arrumou um emprego com um senhor em Taipei, onde tomava conta da mulher dele, que estava doente.Quando a mulher morreu, sete meses depois, Tran mudou de emprego na ilha de Kinmen, em Taiwan. Mas depois ela se deu conta de que havia esquecido o anel e a fotografia na casa do ex-patrão e pediu ajuda à polícia da ilha para reencontrá-los.A polícia contactou Tsai e pediu a ele que procurasse os objetos. A polícia disse que ele ficou chocado quando encontrou o anel e a foto que havia dado a sua namorada há tanto tempo.Ele seguiu imediatamente para Kinmen, onde se reuniu com sua filha.
quarta-feira, 23 de janeiro de 2008
sábado, 12 de janeiro de 2008
O Professor de Português (Conto)
O Professor de Português
Ricardo Meira
Tarde chuvosa, cinzenta, mesmo assim algumas poucas crianças persistiam em brincar desanimadamente na rua. Seu Luís verdureiro passava apressado, convicto que não era um bom dia para vender coentro e outras coisas de sua horta que ele cultivava em Cruz de Rebouças. Dra. Carmelita, com medo de pegar o temporal andava rapidamente em direção a casa de dona Julinha para rezar o terço das sextas-feiras, pois ela era Oblata da Ordem de São Bento e sentia-se obrigada a dar assistência espiritual aos enfermos. Na minha rua, chega um opala azul com capota branca, igual ao Dr. Walter, (aquele advogado que morava na rua do bonfim) e sai um homem franzino de mais ou menos um metro e setenta, com um terno bem riscado de linho branco, chapéu panamá branco, gravata borboleta azul clara. Tinha mais ou menos uns sessenta anos, usava guarda-chuva e uma valise marrom.
Batendo na porta de um vizinho que morava a pouco tempo na rua, perguntou:
-É aqui que mora o professor de português?
-Sim. Esta falando com ele. Em que posso ajuda-lo?
O jovem professor não o convidou para entrar. A conversa continuou.
-Estou precisando de um bom professor de português que possa dar aulas de reforço para duas crianças que ficaram recentemente órfãs de mãe.Quero um professor preparado.
Interessado em conseguir a vaga, o jovem professor discretamente apresentava-se como capacitado para o cargo, pois tinha compromissos a pagar e precisava aumentar um pouco mais os seus proventos, ele sabia que só as aulas que davam na Escola Duarte Coelho (que não eram poucas) mal davam para o seu sustento.
-Onde o senhor cursou o primário?
-Estudei no Sigismundo Gonçalves, fica ali perto da Praça do Jacaré...
-Sei onde é. – Respondeu o velho secamente.- Ao menos deve ter estudado o colegial no Colégio de São Bento, que também fica próximo a Praça do Jacaré...
-Não senhor. Estudei no Colégio Estadual e me formei em letras pela Universidade Católica...
-Sei, sei...
Respondeu o visitante quase mandando o professor calar a boca.
Em meio as fortes trovoadas e ao escurecimento total da tarde (ainda eram umas vinte para as cinco) o misterioso senhor desatou um rosário de exigências sobre o pretenso mestre de seus dois órfãos:
-Quero alguém com pouco mais de trinta anos, que tenha estudado no Colégio de São Bento tanto o primário quanto o colegial. Que seja formado em letras pela Universidade Federal, more aqui por perto da Igreja de São Pedro e de preferência seja do interior. Quero uma pessoa sem os vícios da cidade grande.
Meio sem graça, mas, mesmo assim solicito, o professor lembrou que existia um outro professor de português que morava perto da casa vermelha (aquela que pertenceu a Maurício de Nassau), lá na vinte e sete de janeiro e deu o endereço pra ele.
-Obrigado. Falou o homem com um ar sério.
Foi embora rapidamente, aproveitando o tempo enquanto o temporal não caía.
**********
Corri pela rua Porto Seguro, atravessei pelos fundos da igreja, passei na frente da casa dos Serpa. Quando cheguei na vinte e sete de janeiro, o carro do velho tinha acabado de chegar.
Toc, toc, toc.
-Um momento.
Da esquina vejo um homem de calças jeans e camisa de meia, sandálias japonesas, cabelos cheios e barba por fazer.
Abrindo a porta com cara de sono, ele pergunta ao velho:
-Em que posso ajuda-lo?
-Estou à procura de um professor de português para duas crianças órfãs de mãe.
-Entre, não pegue essa chuva que está pra cair.
Curioso, corri para a porta do homem para ouvir a conversa.
-Como já lhe falei, estou precisando de um professor de português para dar aulas a duas crianças, uma menina de nove anos e um garoto de treze.
A valise marrom e o guarda-chuva sempre ao seu lado me deixaram curioso. Pois, é claro, a essa altura da conversa eu já estava olhando pela fresta da porta que o professor não tinha fechado completamente.
-Onde estudou seu primário?
-Colégio de São Bento.
-E o seu colegial?
-São Bento também.
-Presumo que fez letras na federal.
-Sim senhor. – Respondeu com um ar inocente o professor.
Com uma respiração um pouco arfante, o homem de terno branco fez sua última pergunta:
-O senhor é daqui mesmo dessa cidade?
-Não. Sou de Vitória de Santo Antão, do bairro do Cuscuz.
-Ah! Conheço muito. Nas minhas viagens ao interior, passo sempre por lá. Quase não fico em casa, pois viajo muito supervisionando os empregados.
Querendo resolver com rapidez a negociação para não ter que aturar o velho durante a chuva toda que estava pra chegar, ele falou em negócios:
-Como se chamam as crianças?
-Ana e Raimundo.
-São órfãos de mãe?
-Sim.
-Onde moram?
-Perto do pronto socorro, ali na Praia dos Milagres. O senhor deve conhecer a praia dos Milagres não é?
-Claro, claro... –Respondeu o professor com um sorriso amarelo.
-Quem é o pai das crianças?
-Sou eu. - Respondeu o velho já muito pálido e dessa vez arfante.
-O senhor é viúvo faz muito tempo?
-Não. Fiquei viúvo hoje de manhã.
-Que pena. Meus sentimentos... – Interessante, o senhor mal ficou viúvo, presumo que ainda nem enterrou a sua esposa e já está à procura de professor para os seus filhos.
-O corpo de Dulcinéia ainda está em casa, ela ainda nem foi colocada na pedra e as crianças estão na casa da avó, que mora na Ladeira da Misericórdia... Coitada, nem sabem ainda que a mãe morreu...
-Dulcinéia?!
-Sim, era o nome de minha mulher, linda e jovem que eu tirei da zona do bairro do Recife para morar comigo e ser mãe dos meus filhos, até que um certo professor de português a conheceu na escola onde ela fazia o artigo noventa e nove, e começou a se encontrar com ela na cama do próprio marido enquanto ele viajava para o interior trabalhando...
Abrindo a valise marrom, o homem puxou um trinta e oito prateado e deu um tiro certeiro na testa do professor. Foi embora calmamente.
-Já que gostavas tanto dela, vai pro inferno junto com ela.
Foi a última frase que vi o velho falar.
Por incrível que pareça, li no jornal que os amantes foram enterrados juntos no Cemitério de São João, perto daquela vila onde tinha um quartel do sétimo RO. Mais incrível ainda, é que naquela tarde em que eu vi tudo acontecer, nem choveu. Choveu muito no enterro, encharcando as tristes rosas vermelhas e os cravos de defunto que ficaram em cima dos caixões.
Belém, 1º de Abril de 2003.
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